Wednesday, October 17, 2007

Empresario- Herbert, do Malagueta- Entrevista

Entrevista concedida a Davilmar Santos e Celia de Campos, em 8/8/ 2007

Malagueta Restaurant
Brazilian & Continental Cuisine
25-35 36th Avenue- Astoria,New York 11106


Davilmar- Inicialmente, quero dizer que e' um prazer estar aqui com voce e, tambem lhe agradecer pela gentileza de nos conceder esta entrevista. Para comecar, gostaria que voce se apresentasse para os nossos leitores.
Herbert- Meu nome e' Herbert R. Gomes, sou natural do Maranhao. Aos 05 meses de idade, meus pais mudaram para Sao Luis. Sou de uma familia de 10 irmaos. Eramos 9, ate' que minha mae resolveu adotar mais 1, e completou 10. Meu pai era farmaceutico e mae cuidava da casa. Nao posso dizer que fui um estudante exemplar mas, tive uma infancia alegre, bem divertida. Fiz o Curso de Tecnico em Mecanica, com estagio na Vale do Rio Doce, onde fui efetivado em 1985. Como eu ja tinha um irmao que morava aqui, depois de 5 anos nesta companhia, pedi demissao e vim arriscar minha vida nos EUA. Sou casado com Alda Teixeira Gomes e temos duas filhas.

Davimar- E o apelido de Carne Seca, veio de onde?
Herbert- (Risos) Nao e' bem um apelido. Na tentaviva de criar uma conta de e-mail, tentei alguns nomes regionais como Abobora, Macaxeira, e tudo isso ja' existia na internet. Tentei Carne Seca e foi aceito.

Davilmar- De onde veio essa inclinacao para o ramo de comidas?
Herbert- Isso vem de longe. Como ja' disse, venho de uma familia grande, e na minha infancia, eu estudava pela manha, e de tarde ficava em casa. Quando a empregada chegava e comecava a fazer a comida eu ficava observando tudo. Eu gostava de olhar ela temperando as carnes e, quando ela descuidava, eu passava o dedo e lambia para sentir o gosto. Sempre curti isso de uma maneira muito especial. Era gostoso sentir o sabor do alho, do cumim, e chorar enquanto ela picava cebolas. Quando entrei na adolescencia fomos surpreendidos com a morte de nossos pais. Os dois morreram quase que ao mesmo tempo. Meus irmaos trabalhavam fora e, como eu era o cacula, ficava em casa. Como a renda da familia sofreu uma queda, a empregada foi despedida e eu passei a cozinhar para a familia inteira. Aos 18 anos de idade, fui trabalhar na Vale do Rio Doce, na Serra dos Carajas, no Para', e passei a morar em uma republica com outros rapazes. Era um casarao enorme, e cada um tinha o seu quarto. A gente comprava os mantimentos e cada um cozinhava uma semana. Quando chegava a minha vez, a turma sempre elogiava o gosto do tempero. Eu gostava de preparar costela de vaca com vegetais e cerveja, e uma vez ou outra eu colocava um pouco de cerveja na panela. A galera adorava e pedia para mim cozinhar de novo. E a coisa foi pegando e deu no que deu.

Celia- Como foi que surgiu o seu interesse em vir para os EUA?
Herbert- Vou pegar do comecinho. Eu tinha uma paixao por motocicleta e assim que comecei a trabalhar na Vale do Rio Doce comprei uma a prestacao e passei a curtir essa fase de uma maneira muito intensa. A coisa chegou a tal ponto que, tao logo acordava eu ia ver a moto, ligava e deixava a maquina trabalhando um pouco para aquecer e saia para o trabalho. Quando voltava, era a mesma coisa, lavava, dava um brilho e saia para dar uma voltinha pelas ruas da cidade. Um dia aconteceu uma tragedia, me furtaram a moto! Isso nao podia ter acontecido. Dei parte na policia e perguntei quando eles iriam sair a procura de minha moto. Eles me responderam que para isso eu teria de pagar a gasolina e as depesas com a investigacao. Senti uma indignacao tao grande que parecia que o mundo ia acabar. Que coisa mais absurda, eu um cidadao que pagava os impostos em dia, quando preciso da policia tenho de pagar?! Resolvi procurar minha moto por conta propria. Eu estava alucinado. Viajava ate' em cima dos caminhoes que transportavam madeira, agarrado naquelas toras, igualzinho um macaco. Andei por toda aquela regiao, de Maraba' a Serra Pelada. Nao podia escutar o barulho do motor de uma moto, que eu corria pra'olhar se era a minha. Foi entao que parei para pensar na vida: eu estava com 23 anos, tinha um irmao que morava nos EUA, e nao tinha nada a perder. Comecei a pensar na possibilidade de vir morar aqui com o meu irmao. Se a coisa nao desse certo, eu estava novo e podia recomecar tudo de novo. Nao pensei duas vezes, pedi demissao da Vale do Rio Doce e, com o dinheiro da indenizacao, me dei ferias de dois meses, e vim morar com o meu irmao. Nesses dois meses fizemos de tudo o que o dinheiro podia possibilitar a um turista brasileiro de ferias nos EUA. Fomos a discotecas da moda, shows da Broadway e bons restaurantes ate' que o dinheiro acabou. Sentei para pensar no que fazer. Como ex-funcionario de uma empresa estatal no Brasil, eu tinha 90 dias para recorrer de minha decisao. Mas a esta altura eu ja' estava encantado com esta cidade e o seu estilo de vida, de modo que nao foi muito dificil tomar a decisao de permanecer por aqui. E parti para o meu primeiro emprego, que foi a noite, no SOB, como lavador de prato. Durante o dia eu ajudava o meu irmao na Agencia de Passagens que ele tinha, entregando as passagens que os clientes, a maioria brasileiros, compravam por telefone. Minha maior dificuldade era o idioma. Comecei a prestar atencao em tudo a minha volta, os nomes dos ingredientes, dos pratos, os nomes dos vegetais no menu e comparava com os nomes que estavam nas bancas e nas prateleiras dos supermercados.

Davilmar- Voce tinha um bom emprego no Brasil, era Chefe de Laboratorio em uma grande Empresa Estatal. Foi uma decisao facil largar tudo e vir para recomecar a vida nos EUA?
Herbert- Bom, eu tinha um amigo no departamento de recursos humanos da Vale do Rio Doce, e, volta e meia eu falava pra ele que eu tinha um irmao nos EUA, e que eu tinha vontade de visita-lo um dia. Quando o Presidente Bush, o pai,estava para visitar a Serra dos Carajas, esse meu amigo me perguntou se eu gostaria de fazer parte do comite de recepcao. Gostei da ideia e e ele deu um jeito de me colocar na equipe, de modo que eu estava sempre em contato com o pessoal da comitiva. Quando eles estavam para ir embora, o general que estava coordenando a parte estrategica da comitiva me deu um cartao e disse que quando eu fosse em Brasilia para visita-lo. Dai em diante eu comecei a pensar serio em encontrar um jeito de visitar o meu irmao nos EUA. Antes de tomar uma decisao, dei uma escapada de 10 dias, correndo o risco de perder o emprego, e fui a Brasilia tirar o meu visto e aproveitei para fazer uma visita ao pessoal da comitiva do consulado que esteve em Carajas. Depois de uns contratempos consegui resolver tudo e recebi o visto e, mais a vontade, aproveitei para conhecer a cidade. Um dia antes de retornar para a Vale, me lembrei de visitar o pessoal da comitiva, no Consulado Americano. Chegando la', havia uma fila de politicos e gente importante com entrevista marcada com o meu amigo que me dera o cartao. Todo mndo bem vestido, de terno e sapato engraxado, e eu la' de bermudao, tenis, camisa colorida, cabeludo e despenteado, barba por fazer e oculos escuros, como era a moda na epoca. Quando falei para o recepcionista que eu ia visitar o general, ela me olhou de cima em baixo como quem pensa "como deixaram esse doido entrar aqui?!". (Risos da Celia) Antes que ela pedisse ao seguranca para me "acompanhar" ate' a rua, eu mostrei o cartao do general e ela foi la' na sala dele. De repente, a porta abriu e me saiu o general todo sorridente, de bracos abertos para me abracar. Foi muito divertido ver aquela gente toda me olhando com cara de espanto e sem entender nada do que estava acontecendo. (Risos da Celia) O general me levou para a sala dele onde conversamos por um tempo, e no dia seguinte retornei a Carajas.

Davilmar- Nessa epoca, voce ja' falava ingles?
Herbert- Nao. A gente estuda ingles la' no Brasil, mas quando chegamos aqui parece que da' um branco e esquecemos tudo.

Davilmar- E foi facil se desligar da Vale do Rio Doce?
Herbert- Olha, facil nao foi. Tive de conversar com o pessoal do sindicato e eles se reuniram com o pessoal de recursos humanos da Vale. Fizeram uma serie de entrevistas comigo. Olha, naquela epoca nao era comum um funcionario se desligar da Vale. Eu, por exemplo, tinha uma serie de regalias, nao pagava aluguel, transporte, alimentos, tinha seguro-saude e hospital de graca, ate' despesa de lavanderia era paga pela companhia.

Davilmar- Vamos colocar assim, para o Brasil da epoca, voce estava num paraiso!
Herbert- Exato!

Davilmar- E porque esse desejo de sair do Brasil? Voce ainda estava indignado com o furto de sua motocicleta?
Herbert- E', foi isso e mais a decepcao de ver como os amigos reagiam quando acontecia algo parecido. Na epoca, eles me chamaram de otario, babaca, e tudo mais.

Celia- Porque tinham roubado a sua moto ou porque voce tinha saido a procura dela?
Herbert- Por tudo isso e porque eles achavam que a culpa era minha por ter deixado eles "roubarem" a minha moto. Esse tipo de reacao me deixou muito revoltado e indignado com os meus amigos naquela epoca.

Celia- Mas, voce deixou que eles roubassem a sua moto?! Entao voce viu eles fazendo isso?!
Herbert- Nao! Acontece que a Carajas era uma cidade muito perigosa. A moto vivia na garagem. So' que o ar condicionado estava ligado na sala e nao escutei nenhum barulho estranho quando eles fizeram isso.

Davilmar- Voltando ao seu primeiro trabalho aqui na America, no SOB. Voce chegou a ser chef de cozinha enquanto estava la'?
Herbert- Nao. La' eu cheguei ate' a funcao de Saladeiro. Na epoca, comecei a estudar ingles, ali na Pensilvanya Station, e la' eu fiz amizade com pessoas de minha faixa etaria, e foi ai' que eu me conscientizei um pouco da vida que estava levando. Aquele bando de gente corajosa, sem amigos, sem parentes, lutando com a cara e coragem para vencer na vida, enfrentando todas as dificuldades que apareciam, e nao desistiam. E eu, tendo o suporte de um irmao que ja' vivia aqui, com um trabalho e a possibilidade de crescer na profissao. Foi ai' que tomei a decisao de que iria permanecer e lutar para vencer. Eu trabalhava no SOB, de segunda a sexta, durante o horario do almoco, e ficava livre a noite. A gente saia para passear, visitar museus, barzinhos, e todo mundo no mesmo nivel de ingles, sem poder se comunicar direito, olhando as coisas e apontando para se fazer entender.

Celia- Que coisa interessante, ne'... E voce falou que o seu irmao tinha um amigo que era chef.
Herbert- O cara era chef em um cafe' na rua 57, chamado Cafe' Mirage. E eu fui trabalhar la'. Ele ia me ensinando tudo, dando todas dicas sobre as combinacoes, ingredientes. Depois de algum tempo sai e fui trabalhar no CT, aquele restaurante do Claude Troisgros, o famoso chef frances. Esse restaurante foi aberto onde era o antigo Banana Cafe'. Algum tempo depois, numa conversa com o Troisgros, eu disse que estava pensando em fazer um curso de culinaria e ele me disse que eu iria gastar um dinheirao sem necesidade, que ele nao tinha feito curso nenhum e hoje era um cozinheiro famoso em todo o mundo. So' que ele veio de uma familia com tradicao em culinaria. Para concluir, ele me convenceu a nao fazer o curso alegando que eu aprenderia ali' mesmo no restaurante com ele.

Celia- Ele se propos a lhe ensinar. Interessante! Ele deve ter percebido que voce tinha talento.
Herbert- Ele me transferiu para a secao de peixes e comecou a me dar as dicas. Depois ele me escalou para preparar a comida para a "familia", o pessoal que trabalhava no restaurante, e ia me corringindo, dando conselhos, e fui aprendendo. Dai em diante passei a comprar livros de culinaria e comecei e pesquisar por conta propria. Lia nos livros e praticava na cozinha e ele ia me orientando aqui e ali. O CT foi uma verdadeira escola para mim. Quando sai de la', fui para o Mangia, ali na 57, entre a quinta e a sexta avenidas.

Celia- Porque voce saiu do CT?
Herbert- Claude Troisgros havia saido de ferias e me desentendi com o sub-chef devido a uma falha que aconteceu, que nem foi diretamente por minha culpa. Mas assumi a responsabilidade para nao prejudicar um dish-washer. Esse sub-chef me desrespeitou profissionalmente, e nao aceitei o pedido de desculpas dele. Larguei o emprego e fui comemorar no Scala com uns amigos. Foi a melhor coisa que eu fiz. Nao havia mais clima para continuar trabalhando naquele lugar.

Celia- Em seguida voce foi trabalhar como Chef no Mangia?
Herbert- Nao. Antes disso eu abri o Brasil Restaurante, em New Jersey, com um socio Americano. O nome do restaurante era assim mesmo, com S. Funcionamos durante 4 anos mas acabou nao dando certo e passamos pra frente. Eu ainda nao estava preparado para ser dono de um restaurante. Em seguida, fiz uns trabalhos em algumas cozinhas, coisa sem muita importancia e, depois de dois meses fui para o Mangia, onde fiquei 5 anos. Depois de 3 anos eu fui promovido a Sub-Chef na parte Executiva. O Mangia foi o melhor lugar onde ja' trabalhei. Aquele restaurante era igual o Butantan, so' tinha cobra! Os melhores chefs de New York costumavam trabalhar nas cozinhas de la'. E foi trabalhando no meio desses cobras que eu acabei consolidando o meu estilo como Chef Gourmet.

Davilmar- Voce conheceu sua esposa no Mangia?
Herbert- Eu conheci a Alda no SOB, assim que sai do CT.

Celia- Como e quando surgiu a ideia de abrir um restaurante?
Herbert- Ja' estavamos namorando ha uns tres anos. Nessa epoca eu tinha um bom salario e ela tambem ganhava bem. Um dia, enquanto cuidavamos de nossas financas, contando as nossas economias, pagando as contas, eu perguntei pra ela: "Vamos abrir um negocio?" Ai' ela olhou pra mim e disse: "Vamos!" E foi assim. Continuamos economizando e planejando como seria o tal negocio. Claro que tinha de ser um restaurante! Nessa epoca a gente guardava nossas economias em casa. Nao confiavamos em bancos.

Celia- Nossa! E voces nao tinham medo de acontecer aguma coisa?
Herber- Vou explicar melhor: estavamos para entrar no ano 2000 e corria aquele boato de que na virada do ano os computadores iriam entrar em pane, iam perder os zeros, aquela coisa toda! Ai' eu pensei: "Quer saber de uma coisa, antes que o mal aconteca... ." Eu ficava no trabalho e aquela preocupacao de entrar gente em casa, ou da casa pegar fogo. Era uma paranoia! Tanto eu quanto ela, saiamos do trabalho e iamos correndo pra casa pra ver se tudo estava ok. Ai' a gente colocava o dinheiro todo no chao, e comecava a contar. Dava uma alegria que voce nem imagina. (Risos de todos.)

Davilmar- E como voltar a vida de empresario de restaurante?
Herbert- Comecamos a sondar algumas casas por aqui, em Astoria. Chegamos a dar uma olhada no Sabor Tropical, mas tudo era muito caro.

Davilmar- Voce ja' sabia que tinha de ser por aqui, em Astoria?
Herbert- Eh, tinha de ser. Manhattan estava fora de cogitacao devido aos precos. Um dia, passeando por esta area, Alda notou esta loja, que estava fechada. Chegando em casa ela disse que havia encontrado um "ponto". Quando fui olhar com ela, eu pensei comigo: "Ja' estou vendo o restaurante". Entramos em contato com a proprietaria e esta nos submeteu a uma porcao de entrevistas. Ela foi gente boa, pois nao queria que a gente colocasse nosso dinheiro em um negocio que nao tivessemos certeza que ia dar certo. Quando ela viu que eramos trabalhadores, e que tinhamos condicoes de tocar um restaurante, nos entregou o leasing. Os passos seguintes foram procurar um arquiteto, um contador e abrir a firma.

Davilmar- Quando voces inauguraram o Malagueta?
Herbert- Foi em 1 de Marco de 2001. Me lembro que na primeira semana de funcionamento, faturamos $300.00 Foi uma alegria. O faturamento foi so' aumentado. Estavamos euforicos com as perspectivas. Mas quando sentamos para ver o que tinhamos de pagar, foi aquele choque. O dinheiro saia com a mesma facilidade que entrava. Toda aquela pequena fortuna que a gente conseguiu guardar durante os tres anos anos antes de abrir o restaurante, saiu de nossas maos num piscar de olhos. O inicio foi duro! Tinhamos de fazer de tudo. Nao tinhamos empregados pois nao havia dinheiro para o "giro". A coisa foi indo ate' que chegou o fatidico 11 de setembro. Foi entao que sentimos faltar chao debaixo de nossos pes. Todos os clientes ligavam cancelando as festas que estavam marcadas. Os restaurantes viviam vazios, ninguem saia mais para comer fora. Nossas economias foram acabando. Chegamos a pensar em fechar o restaurante e irmos trabalhar, como empregados, em Manhattan. Comecamos a usar o cartao de credito para pagar todas as despesas. Os parentes de minha esposa e os meus comecaram a trabalhar conosco e a gente dava um dinheirinho para eles em vez de salario. Nao havia outro jeito. Se nao fosse assim, teriamos de fechar as portas e entregar o ponto. Passada aquela fase dificil, os negocios foram melhorando aos poucos e comecamos a respirar de novo. Mas ficou uma licao: cartao de credito, nunca mais na minha vida! Ficamos so' com um para o Malagueta. Mas nao foi uma decisao acertada ter eliminado os cartoes de credito e fechado todos os meus creditos na praca. Infelizmente, no mundo de hoje, ninguem pode viver bem sem ter uma boa linha de credito. Tudo fica dificil na hora que voce quer fazer um investimento, como comprar um imovel para morar, por exemplo.

Davilmar- Vamos voltar ao inicio do Malagueta. Como foi elaborar o primeiro menu?
Herbert- Na verdade, eu ja' vinha planejando o que seria o nosso restaurante ha muito tempo. Eu fazia esquemas, escrevia o menu e saia mostrando para as pessoas do meu circulo de amizade, dizendo: "aqui e' a cozinha, aqui e' o banheiro, aqui e' o salao..." Ao cabo de algum tempo as pessoas passaram a me evitar, pois estavam cheios da minha conversa. Aqueles que nao me evitavam, me imploravam para mudar o disco quando eu comecava a minha lenga-lenga.

Celia- (Risos)
Herbert- Ai' eu voltava pra casa cabisbaixo e triste. A Alda virava-se para mim e dizia: "Voce nao pode desistir agora. Depois de tantos anos de experiencia, trabalhando em restaurantes finos, voce vai ficar dando ouvidos a esses caras que nao entendem nada desse negocio?!" Ela me dava a maior forca e dizia: "Herbert, sua comida e' boa, e' de qualidade. Vai vir gente de longe pra comer no nosso restaurante. Voce vai ver!"

Davilmar- Daqui para a frente, quais sao os seus planos a medio e longo prazo?
Herbert- Rapaz! o Malagueta esta' agora completando 6 anos de vida. Meu plano de imediato, e' fazer uma reforma geral nisso aqui, colocar a cozinha mais para tras e criar uma secao separada para preparacao, salada e sobremesa. Vamos aumentar o salao, fazer um bar, e transformar essas vidracas em janelas que abrirao para o sidewalker. O Malagueta vai ser o primeiro restaurante brasileiro, aqui em Astoria, com sidewalker cafe'. Vamos colocar uns toldos, esilo europeu, indo ate' la' embaixo. Vamos ter chopp, e full bar. Vai ser um novo Malagueta.

Davilmar- O que voce aconselha a um brasileiro que queira se estabelecer no ramo de restaurante, aqui em New York?
Herbert- A primeira recomendacao e' que essa pessoa tenha conhecimento desse ramo. Nao basta fazer um curso de culinaria e meter as caras. E' preciso ter alguns anos de experiencia. Escola nenhuma vai lhe ensinar como abrir e tocar um restaurante. Precisa ter capital de giro. Muitos empresarios novos quebram depois de algum tempo, justamente por falta de capital de giro.

Davilmar- Esse capital de giro seria para quanto tempo?
Herbert- Eu diria para, pelo menos, 12 meses. E' preciso estar preparado para o pior. Tudo pode acontecer numa cidade como Nova Iorque... qualquer coisa.

Davilmar- Na sua opiniao, hoje em dia e' mais facil abrir um negocio deste tipo em New York, do que a 20 anos atras?
Herbert- Eu acho que hoje em dia e' mais facil do que ha 15 ou 20 anos atras. Existe pessoas que justificam alegando que hoje em dia existem mais brasileiros em Nova Iorque e que, porisso seria mais facil abrir um negocio voltado apenas para brasileiros. Mas, aqui nessa area, por exemplo, a presenca de brasileiros e' muito pequena. Eu diria que, dos meus clientes, 1% sao brasileiros. O restante sao americanos ou asiaticos.

Davilmar- Talvez porque o Malagueta seja um restaurante mais seletivo...
Herbert- Pode ser... Aos domingos, a presenca de brasileiros e' um pouco maior, mas no geral, o percentual e' muito baixo.

Davilmar- Se nao fosse um restaurante, qual o tipo de negocio que voce abriria hoje, aqui em New York?
Herbert- Olha, seria restaurante mesmo. Para abrir um negocio na profissao que eu tinha no Brasil, eu precisaria de um capital muito maior. Acredito que culinaria seja uma das profissoes mais proeminentes hoje em dia, alem do glamour e das possibilidades que ela oferece. No Brasil de hoje, a profissao de cozinheiro nos da' a ideia de alguem sem uma especializacao. Nao estou despretigiando a profissao de cozinheiro, mas quando voce diz Chef, esta palavra implica em que o profissional possui ma especializacao, academica ou nao. No campo das revistas, por exemplo, hoje em dia temos publicacoes no Brasil dedicadas a culinaria que podem ser comparadas em pe' de igualdade com os melhores magazines americanos, italianos e franceses. Ou seja, a profissao de Chef ganhou status e exige uma preparacao e atencao igual a outra profissao qualquer. Isso nos leva a reconhecer o devido valor de uma a Ofelia e de outras mulheres importantes , que ajudaram a criar as raizes de uma culinaria brasileira.

Davilmar- Voce esta' se refereindo a culinaria brasileira no Brasil ou mundo?
Herbert- Eu me refiro a culinaria brasileira no Brasil, mesmo. As coisas estao mudando por la'. Hoje em dia temos bons restaurantes nas principais capitais, com chefs de categoria internacional, alguns sao estrelas reconhecidas no mundo inteiro, que resolveram explorar as possibilidades culinarias que o Brasil oferece. Quem poderia imaginar que uma carne seca com abobora poderia despertar o interesse de algum estrangeiro? No entanto, Jacques Chirac, presidente da Franca de 1995 a 2007, numa visita ao Brasil, comeu, gostou e elogiou. Quando perguntou quem era o chef naquele restaurante, toda a comitiva brasileira ficou preocupada. Para a surpresa de todos, ele fez questao de conhecer o chef, cumprimentou-o e ofereceu-lhe uma medalha. Nao me lembro o nome dele, mas ele e' um chef famoso hoje em dia. Sobre esse assunto, NGNT pesquisou e recomenda a leitura dos textos contidos nos links: http://www.terra.com.br/istoe/internac/143326.htm
http://www.zaz.com.br/istoe/comport/143512.htm
Hoje em dia, no Brasil, alem do SENAC, que ensina culinaria a nivel universitario, temos escolas famosas, como Cordon Blue, dentre outras. Sobre esse assunto, NGNT pesquisou e recomenda os sites: http://search.freefind.com/find.htmlid=3556379&pageid=r&mode=ALL&query=CHEFE+EXECUTIVO+DE+COZINHA+&submit2=Procura

Celia- Quando voce pretende iniciar a reforma do Malagueta?

Herbert- Tao logo eu receba a resposta das aplicacoes que enviamos ao departamento de obras. Para isso ja' tenho todo o projeto feito por um arquiteto e so' falta mesmo contratar a construtora.

Celia-
Voce acha que tudo estara' pronto para a primavera de 2008?
Herbert- Se depender de mim, com certeza estaremos com tudo pronto ate' la'.

Celia- E a sua esposa, qual o papel dela hoje no Malagueta?
Herbert- Alda cuida parte administrativa e de toda a papelada. E' ela quem paga as taxas, os empregados..., eu respondo pelo resto. A maioria das compras eu faco, mas ela tambem me ajuda nesta parte.

Davilmar- Voce e' o tipo do chef que acorda de madrugada e vai ao produtor para escolher pessoalmente os produtos mais frescos, etc?
Herbert- (Risos) Nao! Eu acordo as 6 da manha e vou aos supermercados daqui da area mesmo e compro o que necessito. Faco questao de escolher os peixes, as carnes, as verduras, as frutas, e tudo o mais.

Celia- Mas, nao e' mais facil telefonar para um distribuidor e eles entregarem a voce no dia seguinte pela manha, como a maioria dos restaurantes fazem?
Herbert- No meu caso, nao. Sabe porque? nao temos walk-in, no Malagueta. Ainda nao temos o espaco que precisamos, e por isso compramos tudo em pequena quantidade. Com a reforma, teremos uma cozinha maior. Mas, se por um lado, isso e' um inconveniente, por outro faz com que os meus clientes e amigos tenham a certeza de que estamos trabalhando com o que ha' de melhor e mais fresco em termos de ingredientes. Temos geladeiras, freezers, mas ainda nao temos um walk-in.
Nota: walk-in sao geladeiras e/ou freezers onde se pode entrar e caminhar dentro, dado o tamanho grande.

Davilmar- Como e' o dia-a-dia do empresario Herbert?
Herbert- Olha, e' uma vida descansada, com mito relax. Eu acordo por volta das 6 da manha, porque gosto ouvir as noticias da BBC, no canal 21. Acho a parte internacional deles melhor que a do CNN. Tomo cafe com a Alda e levo a minha filha para a ginastica. Depois vou a piscina de Ramos, (risos) aquela piscina do Parque Astoria, que todo o mundo frequenta, isso pra nao termos de ir a praia. Aqui e' mais rapido...Depois jogo tenis na quadra aqui pertinho e, por volta de 10 da manha vou aos supermercados fazer as compras. La' pelas 3 da tarde ja' estou aqui no restaurante, pois a preparacao inicia as 5 da tarde.

Davilmar- Voce quer dizer que vem para o restaurante com as compras e fica direto aqui ate' fechar?
Herber- Nao! Eu venho, deixo as compras guardadas aqui e vou terminar de fazer minhas coisas. Vou a ginastica...

Celia- Voce leva uma vida bem interessante! Trabalha, curte a familia, se diverte...
Herbert- Faco o possivel. Tiro duas ferias por ano e... e' isso.

Davilmar- Voce pratica alguma atividade esportiva?
Herbert- Asoro roller-blad. Sempre que posso vou ao Up-State NY. Gosto de camping, curto levar minha barraca e ficar um final de semana no meio do mato..., gosto de kayak, mergulhar com oculos para ver a paisagem no fundo da agua... Acampar e' muito bom, a gente acorda de manha e curte o cheiro do cafe' feito na hora, e curte a natureza, escutando o barulho dos grilhos, dos passaros. Quando chega a noite a gente se reune em volta da fogueira de lenha, escutando o barulho e sentindo o cheiro da lenha queimando e contando historias para as meninas. A certa altura a gente pega a lanterna e sai com elas pra procurar sapos...

Davilmar- Voce e' do tipo que coloca uma lanterna na mao de sua mulher quando ela lhe chama pra ir ver a lua no meio da noite, la' no acampamento? (Ele ri, sem entender direito, e Celia, muda de assunto).

Celia- Voces tem um menino e uma menina?
Herbert- Nao. Nos temos duas meninas.

Davilmar- Voce ja' esta estabelecido aqui a quantos anos?
Herbert- Estamos aqui ha 6 anos.

Davilmar- Como e' o relacionamento entre os comerciantes brasileiros desta area? Voces sao amigos, se ajudam mutuamente ou este relacionamento e' do tipo cada um por si' e Deus por todos?
Herbert- Eu tenho o habito de visitar todos os restaurantes brasileiros desta area. Visito, almoco e janto em cada um deles, sempre que posso. Agora, o unico dono de restaurante que visita o Malagueta, e' o Ze', daqui do Copacabana. Eu sempre dou uma passadinha la'. Quando vamos a praia, na volta a gente da' uma paradinha la', pega uma marmita com umas linguicinhas, uma salada, essas coisas, e vem pra casa. Tem tambem o Eder, do Chateau Brasil, que eu visito sempre que posso. Ele e' um cara colaborador. Outro dia, minhas picanhas acabaram. Liguei para ele e disse: "Poxa, Eder, minha picanha acabou! Da' pra voce me emprestar umas tres? eu pago amanha, com outra picanha, claro!" "Claro, manda alguem vir aqui pegar!" E' assim. No dia seguinte fui la', pessoalmente, levar as picanhas, e agradecer.

Celia- Voces estao em areas totalmente diferentes, quero dizer, um la' e outro aqui. Na verdade, voces nao sao concorrentes. Embora, eu ache a concorrencia sempre positiva em qualquer ramo de negocios. Ela estimula e nos mantem sharp.
Herbert- Sem duvida. A concorrencia nos forca a pesquisar e nos manter sempre atualizados no que fazemos.

Davilmar- Na sua opiniao, uma uniao entre os comerciantes daqui desta area, uma especie de associacao, seria interessante para desenvolver um senso de colaboracao, de inteiracao entre voces?
Herbert- Somos muito individuais nesta parte. Acho que deveriamos nos unir mais, ate' mesmo para obtermos melhores condicoes de funcionamento junto as autoridades, melhores precos e qualidade de produtos junto aos nossos fornecedores. Por exemplo, eu nao uso carne seca na nossa feijoada porque nao comprar um produto que nao tenham label, que me assegure que eu nao estou utilizando um produto contaminado ou vencido. Se fossemos mais unidos poderiamos ter condicoes ate' de importar diretamente alguns produtos brasileiros de melhor qualidade. O acai, por exemplo, o preco e' um absurdo! Nao da' pra criar uma sobremesa pois o preco seria fora da media. Seria iteressante se fossemos mais unidos. Tenho observado outras comunidades que vivem aqui em Nova Iorque, e noto que elas constroem suas igrejas, suas escolas, seus clubes... Isso passa uma ideia de que a comunidade e' forte, e' unida e trabalha para que seus membros possam ter um convivio melhor. Sonho com o dia em que nossa comunidade possa estar neste nivel. Que tenhamos uma igreja construida por brasileiros, uma escola na qual os nossos filhos possam ter, alem da educacao academica, aulas que lhes possibilitem conhecer melhor o Brasil e nossos costumes, uma sede onde a gente possa se reunir para uma comemoracao.

Davilmar- Voce se dedica, de alguma forma, a alguma atividade comunitaria?
Herbert- Nao. Nao tenho feito isso ainda.

Davilmar- Como voce veria a criacao de uma associacao que fosse voltada para atividades comunitarias, que pudesse ajudar nossas criancas a terem melhor condicoes de estudo, lazer, familias necessitdas a terem algum tipo de ajuda e orientacao?
Herbert- Seria muito interessante! Eu participaria de uma associacao como essa. Agora, se fosse o caso de escolher uma dessas areas, penso que uma associacao desse tipo deveria ser voltada para a crianca.

Celia- Porque a crianca?! eu acho que ja' tem muita gente ajudando criancas de uma maneira ou de outra. Na minha opiniao, os jovens de hoje carecem de uma atencao especial. Voce vai chegar la'. (risos).
Herbert- Olha, seria muito interessante se tivessemos uma associacao desse tipo, com medicos, dentistas, advogados e outros profissionais liberais, todos brasileiros, doando uma pequena parte do seu tempo em prol dos mais necessitados, prestando servicos gratuitos para a comunidade. Poderiamos ter creches para as criancas pequenas cujos pais precisam trabalhar e nao tem com quem deixa-las. Cada pessoa que se associasse, teria uma identidade e a obrigacao de pagar uma mensalidade modica para ter acesso aos servicos oferecidos. Como comerciante, eu apoio uma iniciativa desta natureza e tenho certeza que os outros comerciantes brasileiros tambem vao apoiar uma iniciativa desta natureza.

Davilmar- Herbert, chegamos ao final desta entrevista. Foi um prazer enorme, eu diria gastronomico, ter desfrutado desse tempo conversando com voce, sabendo de sua vida, suas historias e de sua luta para chegar ate' aqui. E o mais importante, com essa disposicao para continuar lutando e para compartilhar um pouco do que voce e' e do que voce tem, com a nossa comunidade brasileira aqui em New York. Estamos torcendo para que voce consiga realizar todos os seus projetos e que o Malagueta continue crescendo e frutifique com voce, Alda e sua familia. Muito obrigado, e tudo de bom!
Celia- Muito obrigada! Ja' eramos clientes assiduos do Malagueta e admiradores do seu trabalho, mesmo antes de conhecer sua luta para chegar ate' aqui. Felicidades e... muito sucesso!


Comentário por Lau Milesi em 17/01/08 - 20h13m
Que legal! Parabéns ao grande empreendedor. Viu? É um batalhador. Um vencedor. E parabéns a vc e à Celia tb, por nos trazer um exemplo de que quando se quer se consegue...Quando for visitar NY, darei um pulinho no Malagueta Restaurant, pode acreditar.Bjs]Lau


Comentário por glinys christ em 20/01/08 - 22h14m
Olá!!Que legal grande personalidade!!Aplausos .... pela sua linda historia de vida!!Seja bem vindo ao nosso GO e obrigadooooooo por me adicionar!!Bjkas♥


Comentário por Sweet em 26/01/08 - 13h26m
Olá, seja bem vindo ao meu espaço.Vou me inteirar do conteúdo do seu blog mas de antemão já lhe digo que adorei a idéia de contar casos de sucesso e luta de pessoas que se dispõem a viver fora do Brasil.Um beijo da Sweet que agora vai ler seu blog.. rs.


Comentário por Luiz Filho em 27/01/08 - 21h52m
Davilmar,Muito interessante seu Blog. Um projeto meritório.Mostrar a vida dos brasileiros hoje, no Brasil ou no exterior, é tão importante quanto registrar as vivências das comunidades tradicionais. É a preservação da cultura brasileira. É a consolidação da Inteligência Coletiva.AbraçosLuiz Ramos.

Enzo has left a new comment on your post "Conheca Herbert, do Malagueta- Restaurant": Queria dizer que acompanhei a trajetória do Chef Herbert, morei em New York e, sei que poucos brasileiros são tão predestinados ao sucesso como ele. Desde que chegou a New York, sempre teve esse sonho de montar um restaurante, entretanto como não tinha experiência, aprendeu tudo com os grandes chefs de NY. Sua vontade de crescer e mostrar para o mundo que a culinária brasileira vai além do churrasco. Um grande abraço.Eduardo Campos